Mármore do Inferno do Usuário de Telefonia

novembro 8, 2009 by admin  
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Desde a abertura do mercado de telecomunicações novos serviços e aplicações são oferecidos aos usuários, sendo alardeada a melhora progressiva dos serviços prestados. A palavra do momento no setor é convergência, de tecnologias e sistemas.

O dócil assinante pode chegar mesmo a questionar como conseguiu sobreviver até hoje sem tudo isso que jamais imaginou algum dia precisar. Alguma coisa que veio resolver os problemas que você nunca teve. Para todos esses produtos, porém, o público alvo é você, cliente, justamente quem padece com a falta de convergência com sua operadora.

Vamos exemplificar com três historinhas, ao menos divertidas – já que tentamos enxergar a vida com óculos cor-de-rosa -, vividas em menos de uma semana.

Cena 1

Resido no Rio e no dia seguinte irei a São Paulo no vôo das 7 horas. Decidida a preservar minha espécie, resolvo não acordar todos os membros de minha família às 5 da madrugada. Isto porque a aparelhagem KS de minha residência está programada no sistema “hola”: todos os aparelhos tocam sucessivamente em uma desagradável onda sonora por todos os ramais.

Pelo celular, procuro inicialmente a programação disponível no próprio aparelho. Descubro que só disponho da opção cronômetro. Disco então o número 134, despertador, que insiste em permanecer ocupado.

Usando a criatividade de usuário esperto, tento o familiar 102, imaginando poder ser outro o número do despertador da telefonia móvel.

Finalmente sou atendida por minha mais recente colega de infância – a voz da máquina -, que gentilmente informa não estar disponível a interface amigável do 102.

Desisto. Nada mais me resta senão passar ao telefone fixo, discando 134.

Maravilhada com as inúmeras opções fornecidas por minha já íntima colega – a voz da máquina -, descubro que tenho a opção de ser despertada pelo celular. Viva!

Tolinha, não comemore antecipadamente.

Sou informada pela voz da máquina de que o serviço somente desperta um número celular entre 7 e 24 horas, donde concluo que usuários de celular não têm por hábito acordar tão cedo.

Ao final de um tempo que beira a eternidade, me dou por vencida. Peço sinceras desculpas à minha família que passará a me odiar, pelo menos por um dia.

Fica instituída a solidariedade compulsória: todos serão obrigados a acordar cedo.

Decidida, tomei então a providência mais séria e prática de que tenho lembrança em minha existência. Desembarcando na paulicéia, imediatamente comprei um antigo, útil e confiável objeto, ainda não dotado de vontade própria: um despertador.

Obviamente o mais analógico possível: de corda manual, pois baterias, de um modo geral, mantêm infeliz tradição de perder a carga quando mais precisamos delas.

Cena 2

Provavelmente um perfeito e lindo pôr-do-sol de domingo no Arpoador e eu trabalhando.

O celular, que foi esquecido ligado, toca.

Uma voz masculina bastante irritada, começa a esbravejar comigo: Quem é você? Qual é a sua? Argh…..

Como obviamente se tratava de um engano e sempre se perde muito tempo explicando o óbvio, desligo a ligação e recomeço meu trabalho.

O nervosinho volta a ligar e decido que a solução mais inteligente, para não ser novamente interrompida, é passar às explicações clássicas.

Desta vez porém, o interlocutor estava literalmente possesso como um Hulk – e provavelmente já verde -, gritando e ameaçando: “Quanto você quer para me devolver meu celular? Fala que eu pago o resgate. Em qual morro você está? Não desliga pois não vou te dar sossego. Eu te acho até o fim do mundo”.

Mas o quê é isto? Respiro fundo várias vezes (saibam que dá certo), indago o número que o gentil cavalheiro estava discando e informo que este mesmo número é de minha titularidade há vários anos.

Mas ele não se conforma, pois tinha absoluta certeza de que estava falando com a pessoa que furtou seu aparelho celular. Ó céus, já estou pagando na terra os meus pecados!

Uma vez que não conseguiria mesmo convencê-lo – e antes que concretizasse a ameaça de transformar minha vida num inferno e descobrir que sou vizinha do Galo (o morro do meu bairro) -, resolvo buscar socorro em minha operadora celular.

Tento explicar o inexplicável à gentil atendente humanóide – que inexplicavelmente fornece as idênticas, inteligíveis e metálicas respostas de sua colega/concorrente de trabalho – a voz da máquina.

Deixe-me ver se entendi: preciso convencer aquele agradável, gentil, tranqüilo e paciente ser humano, que aliás me julga ser uma ladra, a ligar para a companhia e relatar o ocorrido? Ah, bom!

Quer saber? Por mais esta vez, desisti.

Mas adotei uma solução caseira. Mantive meu celular desligado durante dias e fiz uso do incógnito sistema pré-pago, utilizado com grande sucesso pelo mundo do crime. Confiscado do meu funcionário.

Cena 3

Vou viajar ao exterior e decido fazer roaming do celular. Ligo para a operadora e novamente a velha conhecida de infância – voz da máquina -, solicita que tecle um número entre 99 e meia opções de escolha.

Nesse exato momento, me distraio e… perco o número desejado. Recomeço o procedimento, desta vez buscando a concentração exigida para uma partida de xadrez.

Já que nenhuma das opções oferecia o serviço desejado e tendo em vista que não disponibilizam a clássica “nenhuma das opções anteriores”, aposto aleatoriamente em um número que na minha ignorância julgo ser capaz de resolver esta humilde solicitação.

Yes, deu certo! Não, lá vem ela outra vez – a máquina: “Obrigado por… a ligação está sendo transferida para um de nossos atendentes…”.

Após outro infinito período e emocionada por falar com um atendente humanóide, recebo outra longuíssima saudação: obrigado por ligar … agradecemos sua ligação… atendente fulano… – jamais me lembrarei de seu nome novamente – … em que podemos ajudar?

E, antes que possa me manifestar, solicita o número do aparelho, nome do assinante, CIC, tipo de assinatura , tipo sanguíneo e etc… Após o exaustivo fornecimento de todos os dados, finalmente me é dada a oportunidade de poder informar qual serviço desejo. “Vamos transferir sua ligação para o setor competente …”.

E me colocam novamente para esperar … e continuo esperando.

Ao transferir para o tal setor, outro atendente humanóide inexplicavelmente me faz as mesmas perguntas anteriores. Será que esta espécie não se comunica entre si?

Pede para aguardar e… a ligação cai.

Essa singela operação, da qual aliás já estava arrependidíssima, precisou ser reiniciada por três vezes consecutivas, sendo que na última foi difícil conter meus ímpetos assassinos com o tal setor, que de competente não tem nada.

Também, quem manda ficar viajando de lá para cá. Se ficasse quieta no seu canto, nada disso aconteceria.

Estou habilitada. Aleluia irmão, sangue de Jesus tem poder!

Porém, me pergunto se fosse a operadora quem arcasse com os custos da ligação, iria demorar tanto para atender uma solicitação tão normal?

Continuação da Cena 3

Como tudo são flores na sempre bela cidade de Buenos Aires, durante a reunião de trabalho de quinta-feira, o display do meu aparelho celular, agora operando em roaming, informa uma ligação recebida.

Navegando nas opções do menu (e com todo o conhecimento de quem leu o índice do manual do novo aparelho), descubro que recebi uma ligação, na terça-feira anterior.

Não reconheço o número da chamada recebida e teclo o “send” do meu último e caríssimo sonho de consumo.

Um colega de trabalho, que aliás estava ao meu lado durante toda essa operação digital, foi quem atendeu.

O próprio havia me ligado dois dias antes. “Ainda bem que não era urgente”, penso eu.

Observação Final

Há 24 horas tento desesperadamente me comunicar com um parente no México. O 0800 da operadora autorizada a realizar ligações internacionais insistentemente informa: obrigado por escolher… no momento todos os nossos operadores estão ocupados…. e começa a informar a infinidade dos serviços prestados … que não prestam.

E pensar que essas operadoras reclamam do call-back. Pois vou me inscrever urgentemente em qualquer um desses serviços.

Caso não consiga, e a exemplo do despertador, provavelmente terei que recorrer ao antigo e confiável bom serviço prestado pelos Correios.

Conselho final, retirado dos melhores best-sellers de auto-ajuda: Não desista, insista, você consegue!

Você pode e deve continuar acreditando que não é um idiota completo, apesar da violenta insistência em te fazerem crer que faz parte dessa espécie.

Eichalá!

(*) Um usuário, idiota completo, que atende pelo nome Ana Amelia

 Infoguerra
2002